Eu queria tanto escrever mas meu corpo já não responde por mim. Não vejo muito além de um trabalho medíocre e de pessoas que morrerão fazendo aquilo. Meus pés doem muito. Minha cabeça pesa. Minha mão treme. Aquilo é um inferno transvestido de trabalho, em termos de temperatura bem como de ambiente. Ninguém sorri, ou um pouco pior, só sorriem forçados pra manter a tranquilidade: hipócritas, eu não faço parte disso. Até o teto se empilham coisas que eu tenho que pegar; (escada pra que te quero pés pra que te quero), medo de altura, calor. Eu ainda escuto as vozes e risos e toda aquela perturbação organizada em corredores desorganizados com poeira sob caixas. Já nem sinto meus pés, quando acabará tudo isso? Há um sentido? No intervalo sento num banco e olho pro horizonte: não há nada. Estou no meio do nada, sou um nada. Isso mais parece uma prisão. Uma coruja me olha enquanto passo a metro dela, e voa, sente medo ou repugno digno, correto, aceitável Penso mais uma vez naquela mulher que tem a minha alegria num beijo: e como ela mora longe. Tão longe. Deito no banco e ligo o rádio, a sirene toca e começa tudo de novo. Até quando?
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
"O concorrente" Stephen King
Livro: O Concorrente (The Running Man)
Autor: Stephen King.
Editora: Suma de Letras, 2006, 310 páginas.
Tradução: Vera Ribeiro.
Comprei "O concorrente" num balaio na Feira do Livro de Porto Alegre por míseros 10 reais. Confesso que nunca tinha lido nenhum livro do Stephen King e me surpreendi positivamente.
Resenha:
O livro conta a história de Ben, que cansado de ver sua mulher se prostituir, decide participar de um reality show onde o principal objetivo é caçar o concorrente (no caso, ele). O prêmio por escapar com vida dessa perseguição é de 1 bilhão de dólares, feito não realizado por ninguém até então.
Por trás da história nota-se uma forte crítica do autor sobre como é relacionamento das pessoas com os meios de comunicação, especialmente com a televisão. King usa os estereótipos atuais dos reality shows de uma forma exagerada, dando a entender como poderá ser o futuro. Outro ponto crítico do autor é sobre a poluição: no ano de 2025, segundo o livro, as pessoas não poderão sair de casa porque o ar causará diversos problemas respiratórios (inclusive, câncer), e o "ar bom" será privilégio de uma minoria (ricos).
É um livro viciante. A trama desenvolve-se bem, o texto é simples e direto. Stephen King é um dos autores que melhor consegue prender o leitor à história: não há como não compreender o sentimento de Ben, a contexto da realidade das cidades e dos meios de comunicação dos EUA descritos em "O concorrente".
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Dica de livro
domingo, 21 de outubro de 2012
Quase Homeu e Julieta
Ele acorda de madrugada, vira-se para o lado de dentro da cama e tenta abraçar a mulher. Não consegue. Tenta mais uma vez. Fracassa novamente. Abre os olhos e vê que ela não está ali. Segundos depois retoma a consciência. Olha para o bidê onde há um abajur que ilumina parcialmente um porta-retratos. A foto que ele vê agora é a última de sua mulher enquanto viva. Ele mesmo a tirou enquanto ela, desavisada, arrumava o cabelo em frente ao espelho. Chora mais uma vez e tenta domir. Não consegue. A memória pesa de novo. Senti um aperto no coração e olha mais uma vez para a foto. Tira-a do porta-retratos e põe sobre o peito nu da mesma forma que Isabele colocava sua cabeça, e dormia segundos depois. Quando acorda pela manhã ainda sente os ferimentos do acidente. Levanta da cama lentamente e vai até o banheiro. Olha no espelho e vê no seu rosto as marcas das poucas horas de sono dos últimos dias. Nesse momento o telefone toca: é o padre confirmando a missa do sétimo dia do falecimento de sua esposa. Ele conduz a conversa com a voz embargada, e entre palpitações de choro e pausas de silêncio pede conselhos ao padre. Desliga o telefone.
"A culpa foi minha. A culpa foi minha." Repetia centenas de vezes.
Na madrugada do último sábado, quando o casal voltava de carro de um jantar na casa de amigos, Richard, que dirigia, teve um mal súbito e perdeu o controle do veículo que chocou-se de frente com um poste. Isabele morreu na hora. Ele teve pequenos ferimentos e foi encaminhado ainda desacordado para o hospital. Foi diagnosticado que Richard teve um AVC enquanto dirigia. A forma como ele sobreviveu foi encarada pela equipe médica como um verdadeiro milagre já que escapou com vida do acidente e não lhe ficaram sequelas do derrame. Quando acordou domingo de manhã ele não lembrava do que tinha acontecido, e perguntou ao médico o que ele estava fazendo ali. A explicação caiu como uma um bomba na vida de Richard.
Ele pega o telefone e retorna a ligação para o padre, que atende:
- Igreja Nossa Senhora das Dores, sou o Padre Telmo, em que posso ajudá-lo?
- Padre, é o Richard, queria a sua benção.
- A benção, meu filho, acredite sempre em Deus nos momentos mais difíceis...
Richard desliga o telefone, escreve uma carta para a família e engatilha a arma.
- Nem a morte nos separa, amor - diz em voz alta. - E se mata

"A culpa foi minha. A culpa foi minha." Repetia centenas de vezes.
Na madrugada do último sábado, quando o casal voltava de carro de um jantar na casa de amigos, Richard, que dirigia, teve um mal súbito e perdeu o controle do veículo que chocou-se de frente com um poste. Isabele morreu na hora. Ele teve pequenos ferimentos e foi encaminhado ainda desacordado para o hospital. Foi diagnosticado que Richard teve um AVC enquanto dirigia. A forma como ele sobreviveu foi encarada pela equipe médica como um verdadeiro milagre já que escapou com vida do acidente e não lhe ficaram sequelas do derrame. Quando acordou domingo de manhã ele não lembrava do que tinha acontecido, e perguntou ao médico o que ele estava fazendo ali. A explicação caiu como uma um bomba na vida de Richard.
Ele pega o telefone e retorna a ligação para o padre, que atende:
- Igreja Nossa Senhora das Dores, sou o Padre Telmo, em que posso ajudá-lo?
- Padre, é o Richard, queria a sua benção.
- A benção, meu filho, acredite sempre em Deus nos momentos mais difíceis...
Richard desliga o telefone, escreve uma carta para a família e engatilha a arma.
- Nem a morte nos separa, amor - diz em voz alta. - E se mata

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Quase Homeu e Julieta
sábado, 20 de outubro de 2012
O andante - alguma parte
Ela estava sentada na mesa em frente a minha e observava o movimento do bar entre um gole e outro de café. Parecia estar sozinha. Tinha olhos de viajante - depois de todos esses anos andando sem destino, aprendi a identificar pessoas que não são de lugar algum - cerca de 25 anos, belas formas e vestia-se como se fosse um homem. Com um tom de voz firme de quem é habituada a dar ordens e não simplesmente pedir, chamou o garçom e perguntou-lhe o porquê do café estar frio. O rapaz que fitou-a nos olhos e desculpou-se dizendo calmamente que traria outro. Aproveitei o momento e pedi-lhe um cappuccino. Tirou um cigarro e pôs na boca enquanto procurava um isqueiro na bolsa. Não encontrou e então olhou para mim:
- Ei, você aí, me empresta seu isqueiro.
- Desculpe, não fumo.
- Que tipo de pessoa você é que não fuma?
- Do tipo que não tem dinheiro pra gastar com cigarros.
Minha reposta pareceu irritá-la. O garçom que viu nosso diálogo prontamente levou o
isqueiro e um cinzeiro, além de outro café. Ela acendeu o cigarro, mexeu mais uma vez na bolsa e tomou o café num só gole. Num rápido movimento levantou e sentou do meu lado.
- Posso sentar com aqui?
- Você já sentou.
- Você sempre tem respostas prontas ou é burro demais pra conversar.
- Os dois.
Tomei mais um gole do meu cappuccino enquanto ela me olhava fixamente. Não estava interessado em conversar com ela, eu ainda fedia a álcool e minha cabeça doía muito.
- Meu nome é Judy – disse ela enquanto me estendia a mão – e o seu?
- John. - Apertei a mão dela - É “Judy” igual à música?
- Sabia que você perguntaria. Sim, e é por causa da música.
Por um momento tive a sensação de que ela tinha algo pra me dizer. Não me contive e continuei a conversa:
- Então, Judy, o que você faz nesse fim de mundo?
- Estou de passagem, parei aqui antes de continuar minha viagem para Minneapolis.
- E com o que você trabalha?
- Sou traficante de drogas.
Dei um sorriso e terminei o cappuccino. Sacudi a cabeça como quem diz que a piada havia sido boa.
- Não acreditou no que eu disse? Perguntou-me.
- Sim, claro – garçom me traz um café preto, por favor.
- Não gosto de ser debochada, já matei caras iguais a você por coisa menor.
- Calma, Judy, não precisa me matar. Só estou confuso com a situação. O que você quer?
Depois que fiz a pergunta ela levantou-se sem me responder, pagou a conta e saiu. Continuei ali tomando café e lendo um velho jornal que estava em cima da mesa. Na página policial havia no canto inferior uma foto de Judy com o aviso “Procura-se” e mais abaixo em letras menores o anúncio oferecia uma recompensa pela prisão ou morte dela. Fechei o jornal. É coincidência, pensei. Eu ainda estava bêbado e não confiei que realmente era ela a mulher da foto. Acabei o café, paguei a conta e sai. Era de tarde e fazia muito frio na rua, estava prestes a nevar. No caminho até meu carro senti que havia alguém me seguindo mas o medo me fez continuar andando.
- Não adianta fugir - disse a voz.
Parei e olhei pra traz. Era Judy. Talvez por indiferença ou simplesmente por não saber o que fazer, ignorei ela e continuei andando.
- Não costumo errar - gritou Judy.
Dei três passos mais e ouvi um disparo. Por instinto me atirei no chão e olhei pra Judy que ria como se fosse a coisa mais engraçado do mundo.
- Não tenha medo Jhon - disse - só aprenda a me ouvir.
Ela guardou a arma na cintura e veio andando em minha direção.
- Qual o seu problema? Conta sua vida para um estranho, depois some e do nada aparece atirando em mim. Eu nem sei que você!
- É claro que sabe. Você não viu no jornal que estou sendo procurada?
Estava confuso demais pra responder alguma coisa. Retomei a calma e me levantei.
- O que você quer de mim? Perguntei.
- Quero que você me ajude. Vamos, meu carro está aqui perto. No caminho pro meu apartamento eu te explico.
Relutei em segui-la. Ela me olhou novamente, apontou-me a arma e disse: - Ou anda ou morre.
Resolvi andar.
Caminhamos cerca de 5 minutos até o lugar onde estava estacionado um lindo Maverick azul-metálico, muito bem conservado. Entramos. O ronco do motor era algo que me fazia sentir num desses filmes de Hollywood, assim como tudo que passei naqueles poucos minutos até ali. Ela ligou o rádio e começou a cantar - Essa é minha música, John - disse, e a mulher que há pouco tentou me matar mais parecia uma adolescente gritando aos prantos ao ver seu ídolo. Enquanto dirigia pediu-me que pegasse um maço de cigarro que estava no porta-luvas. Abri e vi lá dentro vários saquinhos transparentes com pó branco.
- Cocaína - John, John - Cocaína. Apresentados?
- Eu sei o que é! - falei - Só não esperava encontrar isso aqui.
- Vamos de uma vez com esse cigarro. Acredita em mim agora?
Nesse momento, quando estávamos aguardando o sinal abrir, parou do nosso lado uma viatura da polícia. Fechei o porta-luvas rapidamente, olhei fixamente para frente e comecei a rezar para que eles não tivessem visto. Fiquei apavorado. Judy continuou a cantar como se nada estivesse acontecendo. O sinal abriu e Judy acelerou e dobrou à direita. Olhei pelo retrovisor e a viatura estava bem atrás de nós. Comecei a suar gelado. Que merda que estava acontecendo? Há 1 hora eu estava numa lancheria curando minha ressaca e agora sou um traficante de drogas perseguido pela polícia. Ela continuava tranquila, mas já tinha parado de cantar.
- Tem uma arma à sua esquerda, embaixo do banco próximo de onde você prendeu o cinto de segurança, não faça movimentos bruscos.- Disse Judy.
- Eu nunca usei uma arma na vida!
- Se não usar agora talvez você não use nunca mais.
Olhei mais uma vez no espelho e lá seguia a viatura. Depois de algumas tentativas consegui pegar a arma, e coloquei no meu colo. Judy acelerou bruscamente como que se quisesse fugir, a viatura fez da mesma forma, além de ligar a sirene. Olhei pra Judy como se esperasse dela uma resposta.
- O gatinho não está com medo, ou está?
- O que você está fazendo? Que merda você está fazendo?
- Cale a boca e escute! - Disse - veja se a arma está carregada e se estiver, engatilhe.
Minhas mãos estavam suadas e trêmulas. Eu já havia perdido a noção e encarava aquilo como um pesadelo.
- A PORRA DA ARMA ESTÁ DESCARREGADA! - Gritei.
- A próxima vez que você gritar comigo eu descarrego a minha em você.
- Pegue isso! - Disse e me deu um caixa branca - Abri e lá haviam balas. Carreguei a arma, engatilhei. (Os filmes serviam, sim, para alguma coisa)
Nessa hora, um disparo atingiu a lataria do carro e seguido de outros que tentavam furar os pneus do carro. ABAIXE-SE - gritou Judy, como se precisasse mandar. Por sorte nenhum um tiro nos acertou. O Maverick era muito mais veloz que a velha viatura. Conseguimos ficar a uma certa distância dele. O barulho da sirene ficava cada vez mais baixo. Comecei a me sentir confortável com a situação ou qualquer outra coisa parecida como quando sabemos que não morreremos mais, pelo menos agora. E Judy sorria.
- Foi por pouco, achei que nos pegariam dessa vez.
- "Nos"? O que eu tenho a ver com você, com suas drogas?
- Até 1 hora atrás, nada. Agora você faz parte e só sairá morto.
Suspirei.
- O que você quer de mim - falei - Por quê EU?
- Quero que você me ajude a vender o pó, estou sozinha na cidade.
- E se eu não aceitar?
- Eu te mato. E não estou brincado, eu NUNCA brinco. Se tudo der certo você lucra 5 mil dólares por semana, essa é a sua parte. Tenho bons clientes que pagam em dinheiro e também em jóias. Alguma pergunta?
Nesse momento Judy me olhou da mesma forma que fizera no bar. Continuei:
- E por que você ME escolheu? Não sei nem usar uma arma. Por que eu?
- Você não tem nada a perder, é um vagabundo sem ninguém que fica perambulando por aí vivendo de trabalhos ridículos.
Não respondi, até porque em grande parte estava certa.
- Ok. Por onde começamos?
- Vamos ter que voltar para Saint Cloud. Tenho que pegar uma mala que está no meu apartamento no centro da cidade.
- Como assim? Você quer voltar pra lá? A polícia deve estar atrás de nós.
- Sim, vamos voltar, mas só de manhã. Passaremos a noite num hotel que fica aqui perto.
Andamos mais uns 20 minutos e chegamos no hotel que era próximo de Minneapolis. Judy falou com o porteiro como se ele fosse um velho conhecido. Entramos e ela pagou a estadia em 2 quartos. A temperatura caía junto com a chegada da noite. Ficou combinado que sairíamos às 4:00 da manhã antes do amanhecer pois essa seria a hora mais segura de retornar à cidade.

- Ei, você aí, me empresta seu isqueiro.
- Desculpe, não fumo.
- Que tipo de pessoa você é que não fuma?
- Do tipo que não tem dinheiro pra gastar com cigarros.
Minha reposta pareceu irritá-la. O garçom que viu nosso diálogo prontamente levou o
isqueiro e um cinzeiro, além de outro café. Ela acendeu o cigarro, mexeu mais uma vez na bolsa e tomou o café num só gole. Num rápido movimento levantou e sentou do meu lado.
- Posso sentar com aqui?
- Você já sentou.
- Você sempre tem respostas prontas ou é burro demais pra conversar.
- Os dois.
Tomei mais um gole do meu cappuccino enquanto ela me olhava fixamente. Não estava interessado em conversar com ela, eu ainda fedia a álcool e minha cabeça doía muito.
- Meu nome é Judy – disse ela enquanto me estendia a mão – e o seu?
- John. - Apertei a mão dela - É “Judy” igual à música?
- Sabia que você perguntaria. Sim, e é por causa da música.
Por um momento tive a sensação de que ela tinha algo pra me dizer. Não me contive e continuei a conversa:
- Então, Judy, o que você faz nesse fim de mundo?
- Estou de passagem, parei aqui antes de continuar minha viagem para Minneapolis.
- E com o que você trabalha?
- Sou traficante de drogas.
Dei um sorriso e terminei o cappuccino. Sacudi a cabeça como quem diz que a piada havia sido boa.
- Não acreditou no que eu disse? Perguntou-me.
- Sim, claro – garçom me traz um café preto, por favor.
- Não gosto de ser debochada, já matei caras iguais a você por coisa menor.
- Calma, Judy, não precisa me matar. Só estou confuso com a situação. O que você quer?
Depois que fiz a pergunta ela levantou-se sem me responder, pagou a conta e saiu. Continuei ali tomando café e lendo um velho jornal que estava em cima da mesa. Na página policial havia no canto inferior uma foto de Judy com o aviso “Procura-se” e mais abaixo em letras menores o anúncio oferecia uma recompensa pela prisão ou morte dela. Fechei o jornal. É coincidência, pensei. Eu ainda estava bêbado e não confiei que realmente era ela a mulher da foto. Acabei o café, paguei a conta e sai. Era de tarde e fazia muito frio na rua, estava prestes a nevar. No caminho até meu carro senti que havia alguém me seguindo mas o medo me fez continuar andando.
- Não adianta fugir - disse a voz.
Parei e olhei pra traz. Era Judy. Talvez por indiferença ou simplesmente por não saber o que fazer, ignorei ela e continuei andando.
- Não costumo errar - gritou Judy.
Dei três passos mais e ouvi um disparo. Por instinto me atirei no chão e olhei pra Judy que ria como se fosse a coisa mais engraçado do mundo.
- Não tenha medo Jhon - disse - só aprenda a me ouvir.
Ela guardou a arma na cintura e veio andando em minha direção.
- Qual o seu problema? Conta sua vida para um estranho, depois some e do nada aparece atirando em mim. Eu nem sei que você!
- É claro que sabe. Você não viu no jornal que estou sendo procurada?
Estava confuso demais pra responder alguma coisa. Retomei a calma e me levantei.
- O que você quer de mim? Perguntei.
- Quero que você me ajude. Vamos, meu carro está aqui perto. No caminho pro meu apartamento eu te explico.
Relutei em segui-la. Ela me olhou novamente, apontou-me a arma e disse: - Ou anda ou morre.
Resolvi andar.
Caminhamos cerca de 5 minutos até o lugar onde estava estacionado um lindo Maverick azul-metálico, muito bem conservado. Entramos. O ronco do motor era algo que me fazia sentir num desses filmes de Hollywood, assim como tudo que passei naqueles poucos minutos até ali. Ela ligou o rádio e começou a cantar - Essa é minha música, John - disse, e a mulher que há pouco tentou me matar mais parecia uma adolescente gritando aos prantos ao ver seu ídolo. Enquanto dirigia pediu-me que pegasse um maço de cigarro que estava no porta-luvas. Abri e vi lá dentro vários saquinhos transparentes com pó branco.
- Cocaína - John, John - Cocaína. Apresentados?
- Eu sei o que é! - falei - Só não esperava encontrar isso aqui.
- Vamos de uma vez com esse cigarro. Acredita em mim agora?
Nesse momento, quando estávamos aguardando o sinal abrir, parou do nosso lado uma viatura da polícia. Fechei o porta-luvas rapidamente, olhei fixamente para frente e comecei a rezar para que eles não tivessem visto. Fiquei apavorado. Judy continuou a cantar como se nada estivesse acontecendo. O sinal abriu e Judy acelerou e dobrou à direita. Olhei pelo retrovisor e a viatura estava bem atrás de nós. Comecei a suar gelado. Que merda que estava acontecendo? Há 1 hora eu estava numa lancheria curando minha ressaca e agora sou um traficante de drogas perseguido pela polícia. Ela continuava tranquila, mas já tinha parado de cantar.
- Tem uma arma à sua esquerda, embaixo do banco próximo de onde você prendeu o cinto de segurança, não faça movimentos bruscos.- Disse Judy.
- Eu nunca usei uma arma na vida!
- Se não usar agora talvez você não use nunca mais.
Olhei mais uma vez no espelho e lá seguia a viatura. Depois de algumas tentativas consegui pegar a arma, e coloquei no meu colo. Judy acelerou bruscamente como que se quisesse fugir, a viatura fez da mesma forma, além de ligar a sirene. Olhei pra Judy como se esperasse dela uma resposta.
- O gatinho não está com medo, ou está?
- O que você está fazendo? Que merda você está fazendo?
- Cale a boca e escute! - Disse - veja se a arma está carregada e se estiver, engatilhe.
Minhas mãos estavam suadas e trêmulas. Eu já havia perdido a noção e encarava aquilo como um pesadelo.
- A PORRA DA ARMA ESTÁ DESCARREGADA! - Gritei.
- A próxima vez que você gritar comigo eu descarrego a minha em você.
- Pegue isso! - Disse e me deu um caixa branca - Abri e lá haviam balas. Carreguei a arma, engatilhei. (Os filmes serviam, sim, para alguma coisa)
Nessa hora, um disparo atingiu a lataria do carro e seguido de outros que tentavam furar os pneus do carro. ABAIXE-SE - gritou Judy, como se precisasse mandar. Por sorte nenhum um tiro nos acertou. O Maverick era muito mais veloz que a velha viatura. Conseguimos ficar a uma certa distância dele. O barulho da sirene ficava cada vez mais baixo. Comecei a me sentir confortável com a situação ou qualquer outra coisa parecida como quando sabemos que não morreremos mais, pelo menos agora. E Judy sorria.
- Foi por pouco, achei que nos pegariam dessa vez.
- "Nos"? O que eu tenho a ver com você, com suas drogas?
- Até 1 hora atrás, nada. Agora você faz parte e só sairá morto.
Suspirei.
- O que você quer de mim - falei - Por quê EU?
- Quero que você me ajude a vender o pó, estou sozinha na cidade.
- E se eu não aceitar?
- Eu te mato. E não estou brincado, eu NUNCA brinco. Se tudo der certo você lucra 5 mil dólares por semana, essa é a sua parte. Tenho bons clientes que pagam em dinheiro e também em jóias. Alguma pergunta?
Nesse momento Judy me olhou da mesma forma que fizera no bar. Continuei:
- E por que você ME escolheu? Não sei nem usar uma arma. Por que eu?
- Você não tem nada a perder, é um vagabundo sem ninguém que fica perambulando por aí vivendo de trabalhos ridículos.
Não respondi, até porque em grande parte estava certa.
- Ok. Por onde começamos?
- Vamos ter que voltar para Saint Cloud. Tenho que pegar uma mala que está no meu apartamento no centro da cidade.
- Como assim? Você quer voltar pra lá? A polícia deve estar atrás de nós.
- Sim, vamos voltar, mas só de manhã. Passaremos a noite num hotel que fica aqui perto.
Andamos mais uns 20 minutos e chegamos no hotel que era próximo de Minneapolis. Judy falou com o porteiro como se ele fosse um velho conhecido. Entramos e ela pagou a estadia em 2 quartos. A temperatura caía junto com a chegada da noite. Ficou combinado que sairíamos às 4:00 da manhã antes do amanhecer pois essa seria a hora mais segura de retornar à cidade.

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O andante
Voto obrigatório
Sou a favor do voto facultativo. Sou a favor do voto dado com vontade e convicção. A obrigatoriedade é contrária a liberdade de escolha, o princípio básico da democracia, além de dar poder à pessoas que não tem o mínimo critério na hora da escolha do candidato ou simplesmente que não se importam com as consequências do pleito.
Entendo essa indiferença do povo sobre a política. Não há como ser diferente, não tenho razões pra te convencer que a política brasileira tem solução sem um maço de reais e um discurso carregado de promessas.
Sou contra o humor. O povo não. Julga-se palhaço e elegeu um no real exercício para representá-los no grande circo sem humor da política nacional. Eu não os condeno, muitos votaram e ainda votam (o que é o pior) no Fernando Collor, por que não votariam no Tiririca? Se der errado, pelo menos temos a piada. O povo gosta de alegria. Se o voto fosse facultativo “evitaria” o Tiririca: 500 mil pessoas não sairiam de suas casas para fazer uma piada: o povo é mais preguiçoso que alegre. E o Collor, o que evitaria o Collor? Resposta: um política séria e baseada em regras como: “roubou = nunca mais ocupará cargos públicos”. Simples.
Sei que o voto continuará obrigatório, só deixo minha sugestão: adiem o pleito para segunda. Explico. Com a mudança não será afetada o descanso do eleitorado, assim como será mantido o futebol sagrado na TV domingo à tarde, e, sobre tudo, teremos mais um feriadão. Lembrem-se: o povo, acima de tudo, gosta de feriadão.
Entendo essa indiferença do povo sobre a política. Não há como ser diferente, não tenho razões pra te convencer que a política brasileira tem solução sem um maço de reais e um discurso carregado de promessas.
Sou contra o humor. O povo não. Julga-se palhaço e elegeu um no real exercício para representá-los no grande circo sem humor da política nacional. Eu não os condeno, muitos votaram e ainda votam (o que é o pior) no Fernando Collor, por que não votariam no Tiririca? Se der errado, pelo menos temos a piada. O povo gosta de alegria. Se o voto fosse facultativo “evitaria” o Tiririca: 500 mil pessoas não sairiam de suas casas para fazer uma piada: o povo é mais preguiçoso que alegre. E o Collor, o que evitaria o Collor? Resposta: um política séria e baseada em regras como: “roubou = nunca mais ocupará cargos públicos”. Simples.
Sei que o voto continuará obrigatório, só deixo minha sugestão: adiem o pleito para segunda. Explico. Com a mudança não será afetada o descanso do eleitorado, assim como será mantido o futebol sagrado na TV domingo à tarde, e, sobre tudo, teremos mais um feriadão. Lembrem-se: o povo, acima de tudo, gosta de feriadão.

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Voto obrigatório
O sequestro
(Notícia do jornal) Empresário sequestrado no centro da cidade.
A vítima está com os braços amarrados para trás, ajoelhada sob o cimento do piso nu e olhando fixamente para a única janela do cativeiro. A pouca luz que entra no ambiente deixa o clima ainda mais tenso. Latidos de cães, pés que pisam firme em outro cômodo da casa e o relógio de parede soa pontualmente no completar das horas, fazem do lugar o inferno para Jorge.
(Notícia do jornal) O sequestro completa exatos 30 dias hoje, e as notícias que chegam através de telefonemas não são alentadoras. O valor do resgate pedido é desigual com a realidade financeira da família. No último contato feito, os sequestradores estipularam um prazo de 48 horas para o pagamento, caso contrário a vítima seria executada.
A negativa do pagamento por parte da família irrita os sequestradores. O responsável pelo cativeiro propõe o corte de uma das orelhas da vítima e o envio para as autoridades, dessa forma, disse ele, ficaria claro que o sequestro não era uma brincadeira.
(Notícia do jornal) Empresário mantido em cativeiro teve orelha cortada.
A dor que sente, somada com a pressão psicológica feita pelos sequestradores, faz com que Jorge prefira estar morto. Uma atadura foi colocada em sua cabeça a fim de estancar o sangue do corte feito na orelha. O ambiente agora mais parece um pesadelo, e em meio a alucinações e vozes ele a murmura trechos de orações.
Quando faltavam 6 horas para fechar o prazo, o delegado responsável pela investigação recebe um telefonema anônimo dando a localização do cativeiro. A polícia chega no local e é recebida a tiros. Em maior número, os policiais conseguem invadir a casa.
(Notícia do jornal) Empresário sequestrado é encontrado morto.
O suor cai como um gota a gota sobre o cano viril da pistola apontada para a cabeça de Jorge. A polícia invade a casa. Gritos e disparos se misturam, e podem ser ouvidos onde os dois estão. Com a mão trêmula, ele engatilha a arma e atira. Acerta. Minutos depois a polícia invade o cativeiro e mata o atirador.

A vítima está com os braços amarrados para trás, ajoelhada sob o cimento do piso nu e olhando fixamente para a única janela do cativeiro. A pouca luz que entra no ambiente deixa o clima ainda mais tenso. Latidos de cães, pés que pisam firme em outro cômodo da casa e o relógio de parede soa pontualmente no completar das horas, fazem do lugar o inferno para Jorge.
(Notícia do jornal) O sequestro completa exatos 30 dias hoje, e as notícias que chegam através de telefonemas não são alentadoras. O valor do resgate pedido é desigual com a realidade financeira da família. No último contato feito, os sequestradores estipularam um prazo de 48 horas para o pagamento, caso contrário a vítima seria executada.
A negativa do pagamento por parte da família irrita os sequestradores. O responsável pelo cativeiro propõe o corte de uma das orelhas da vítima e o envio para as autoridades, dessa forma, disse ele, ficaria claro que o sequestro não era uma brincadeira.
(Notícia do jornal) Empresário mantido em cativeiro teve orelha cortada.
A dor que sente, somada com a pressão psicológica feita pelos sequestradores, faz com que Jorge prefira estar morto. Uma atadura foi colocada em sua cabeça a fim de estancar o sangue do corte feito na orelha. O ambiente agora mais parece um pesadelo, e em meio a alucinações e vozes ele a murmura trechos de orações.
Quando faltavam 6 horas para fechar o prazo, o delegado responsável pela investigação recebe um telefonema anônimo dando a localização do cativeiro. A polícia chega no local e é recebida a tiros. Em maior número, os policiais conseguem invadir a casa.
(Notícia do jornal) Empresário sequestrado é encontrado morto.
O suor cai como um gota a gota sobre o cano viril da pistola apontada para a cabeça de Jorge. A polícia invade a casa. Gritos e disparos se misturam, e podem ser ouvidos onde os dois estão. Com a mão trêmula, ele engatilha a arma e atira. Acerta. Minutos depois a polícia invade o cativeiro e mata o atirador.

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